Santo Agostinho foi um brihante defensor da razão. Parece que continuamos precisando dele em um mundo que se divide agora entre as drogas e a fé cega. Aliás, o comportamento sensato sempre foi virtude de poucos. O próprio Santo Agostinho achava isso: “Sabes, também, eu o penso, que a maioria dos homens é formada de insensatos (stultus)?”(De Libero Arbitrio (9,19)).
Hoje, a quem é sensato, as idéias dele podem parecer banais. Mas, o que parece banal tem o peso de uma civilização, milênios de observação inteligente. Sto Agostinho, a partir do ano 388, examina o livre-arbítrio; examina as nossas paixões, as nossas escolhas e o valor da razão. Nada melhor do que isso para diminuir o papel que as drogas têm hoje e, por outro lado, diminuir também o papel que tem a fé cega.
Ele dá fundamentos à sensatez e assim conforta os sensatos. Aqui, neste breve ensaio, o leitor talvez encontre esse conforto, mesmo limitado à pressa de hoje.
Sto Agostinho reconhece que o princípio de tudo tem que ser pela fé. Tem que haver uma aposta inicial. Sem acreditar em nada estamos perdidos, sem rumo. Não partimos para coisa alguma. Assim é que ele recomenda: (1,2,5) "Tem coragem e conserva a fé naquilo que crês."
Ninguém nasce sabendo. Não há como começar sem acreditar inicialmente em alguém, sem ter um palpite, que seja. Mas é preciso olhar em volta. Logicamente, Santo Agostinho conclui que a fé cega não é suficiente. (2,6) "Pois não se pode considerar como encontrado aquilo em que se acredita sem entender."
Assim é que o Deus de Sto Agostinho – que é a Verdade – recomenda que o Homem use a razão. Que se comece pela fé, mas não se fique reduzido a isso. Não basta crer, é preciso buscar a compreensão: (10, 21) "Existe, na tua opinião, algo mais nobre do que a mente dotada de razão e sabedoria?"
E assim ele chega a essa parte crucial: a Verdade está disponível para qualquer um. A Verdade está disponível para quem se interessar. (14,37)"A Verdade acolhe todos aqueles que a amam, sem suscitar qualquer inveja. (12,34) ... cada um apenas constata ser assim. Ninguém corrige como se fosse algum censor, mas registra com alegria como uma descoberta."
Finalmente, fica claro: o Mal, vem do desinteresse em entender; o Mal vem do desinteresse em ver o que é verdade, em deixar-se levar por desejos inferiores. A injustiça decorre da ignorância deliberada. O sujeito é injusto porque não quer nem saber, segue desejos desordenados.
A razão vai conduzindo os argumentos de Santo Agostinho. Vão aqui palavras dele: (17,48) "Logo, é a vontade desregrada a causa de todos os males. Se essa vontade estivesse em harmonia com a natureza, certamente esta a salvaguardaria e não lhe seria nociva. Por conseguinte, não seria desregrada. De onde se segue que a raiz de todos os males não está na natureza. (10,28) … é preciso viver conforme a justiça, subordinar as coisas menos boas às melhores; comparar entre si as semelhantes; e dar a cada um o que lhe é devido. Não concordarás que tudo isso é muito verdadeiro e apresenta-se universalmente à minha disposição como à tua, e a todos aqueles que o considerarem?"
Finalmente, vale lembrar que a esses - que não se interessam em buscar a verdade - cabem duas penalidades: a ignorância e a dificuldade. (18,52) "Da ignorância, provém o vexame do erro; e da dificuldade, o tormento que aflige."
Que tal abraçar Sto Agostinho?
domingo, 28 de agosto de 2016
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3 comentários:
Pode ser que seja verdade o que nos diz Santo Agostinho: "A Verdade está disponível para quem se interessar". Mas o fato é que a vida moderna está tornando esta busca pela Verdade mais difícil na medida em que o mundo virtual e os mitos cada vez mais se apoderam da mente e do tempo de todos nós humanos. Ultimamente tenho pensado que a Matemática é o que mais pode nos aproximar desta "Verdade" ou de uma prova da existência de Deus ... mas o "pulo do gato" está longe de acontecer se é que a Humanidade tem condições de fazer tal pulo acontecer.
Eu quis dizer que é confortante saber que buscamos o mesmo. Que a verdade pode machucar ... Muitas vezes machuca. Pode ser difícil ... Mas se quisermos mesmo podemos chegar até ela. O importante parece ser querer chegar até ela. Lendo agora o que escrevi, vi que ficou bem confuso o entendimento.
Foi culpa da emoção ...
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