domingo, 20 de setembro de 2015

OS LIMITES DO ACOLHIMENTO E DA TOLERÂNCIA

Hoje parece haver uma reação impensada, automática, no sentido de tolerar e acolher – pelo menos no discurso. Não se trata de haver agora uma generosidade imensa, mas uma política voltada para tolerância infinita, para não criticar. Qualquer que seja a situação, os manifestantes estão imediatamente a favor de permitir, de admitir, de agregar, de trazer todos para o grupo. Nada de polêmica! A união é o que importa, não interessa muito em torno de que haverá essa união.

Parece que a expressão “Tudo tem limite” foi superada. E então aceitar, tolerar, abraçar, seriam uma boa coisa sempre: nunca estariam em excesso.

E, no entanto, é óbvio que existe uma linha além da qual acolher é questionável. Talvez um exemplo bem concreto mostre isso: Vamos supor que um bote salva-vidas tivesse um aviso: “Capacidade máxima 10 pessoas”. Vá lá que, espremendo, caibam 13. Mas com 14 o bote afunda. E já estão os 13 a bordo. Na água estão outros náufragos, pedindo socorro. Um a mais dentro do bote, e ele afunda. E então? Qual a decisão ética? Qual a decisão corajosa, lúcida, justa, equilibrada?

Como se pode perceber, nem mesmo a Ética orienta claramente as escolhas. Não há regras simples. Sartre tratou disso. Comparou as decisões éticas com as estéticas, admitindo que não há regras para guiar passo-a-passo um trabalho artístico. E contou o caso de um aluno dele, no tempo da Segunda Guerra, indeciso entre ir para a Inglaterra - juntar-se à Resistência para lutar contra os alemães - ou ficar junto à mãe; solitária, separada do marido, e que havia perdido o outro filho, mais velho, na ofensiva de 1940. Enfim, por um lado ele era a razão da vida dela; por outro lado era um cidadão francês... Decisão difícil...

Voltando ao Brasil, houve uma época em que a nossa Presidente julgou correto assaltar, com o intuito de financiar a luta contra o governo militar. E então, até que ponto acha justo financiar seu próprio partido por meios ilícitos? Difícil dizer. No caso não se trata propriamente de falta de ética, mas sim de qual ética, de quais são suas guias morais.

A natureza da Ética está em reconhecer que há coisas admiráveis e coisas condenáveis. Quem acha que qualquer ato tem o mesmo valor, ou seja - quem é indiferente - não tem Ética.

Ocorre que, no Brasil de hoje, há uma tolerância que não se distingue da indiferença. As políticas correm inquestionadas e, por conta dessa longa letargia, que se confunde com unanimidade, falta distinguir o ato bom do ato mau. Falta reconhecer o que foi admirado por milênios: os exemplos de coragem, de conhecimento, de justiça, de equilíbrio. Não se expressa admiração pelo ato valoroso. Mas, pior, é que não se condena o ato mau. Condenar um ato seria visto como um gesto de dissensão, de desunião. E, hoje, a união em torno de qualquer coisa não deve ser questionada. Nada de polêmica! Tolera-se tudo, menos o questionamento.

Isso não é novidade, nem tampouco priviégio da esquerda: no Século XIX, o primeiro-ministro britânico Disraeli, conservador, já dizia: “Danem-se os seus princípios, siga o seu partido! (Damn your principles, stick to your party)”. É isso mesmo que nós queremos?

Ou será que desejamos gente com princípios, gente disposta a defendê-los? Não se trata aqui do questionamento áspero, mas do posicionamento firme quanto aos fatos, ainda que suave quanto aos gestos: "Fortiter in re, suaviter in modo".


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