segunda-feira, 27 de julho de 2015

A NOSSA DEGRADAÇÃO MORAL E UMA ENCRUZILHADA

Pessoas públicas em todo o mundo têm alertado contra uma degradação moral que parece ser generalizada. Como consequência da globalização, talvez, passou-se a aceitar tudo em nome de uma tolerância que, afinal, tolera o crime. Ou, pior ainda, já não sabe mais se o crime é crime. Os mais velhos aprenderam a fingir que nunca percebem mal algum. Não protestam, não criticam.

Assim é que o médico aplica um tratamento desnecessário fingindo para si mesmo e para os outros que está apenas sendo precavido. O engenheiro destrói as nascentes de um rio para que passe uma estrada que ele finge ser mais importante. Tudo pelo lucro imediato.

Sempre houve gente assim, desligada de qualquer ética. A questão é que, se a maioria tem esse comportamento, cínico, a sociedade para de funcionar. Param de existir as condições para que se produza. Os mais corruptos roubam tudo o que aparece. Sobra pouca coisa para os outros.

Mas as reações começam a aparecer, porque as consequências desse comportamento cínico não são agradáveis. E então a Hilary Clinton faz uma campanha presidencial com um discurso moralista, dizendo que precisamos mudar esses procedimentos que agora achamos “normais”.

A campanha para presidência prega a moralidade nos negócios. Reclama do atual imediatismo dos executivos, que ficam especulando no mercado de ações de curto prazo e não se preocupam com as inovações e melhorias nos produtos das empresas. Reclama desse ambiente em que os negócios vão quebrando: os executivos ficam ricos rapidamente, enquanto outros trabalham desorientados.

A questão é que, se a população convive com uma mentalidade dessas, imediatista, vai empobrecendo, e o país vai perdendo sua capacidade de superar as dificuldades que a vida traz. As desigualdades aumentam brutalmente.

Platão entendia que as democracias são uma forma de governo que busca cada vez mais liberdade. E previa um fim para as democracias: achava que essa liberdade toda terminava no caos. E então surgia naturalmente um tirano, estabelecendo alguma ordem para alívio de todos.

Enfim, o tempo devora as coisas, de uma forma ou de outra. Devora as democracias, mas devora Platão também. O fato é que, hoje, há democracias funcionando por um bom tempo.

E então, veio essa reportagem no New York Times. Foi escrita em Istambul. Fala do Estado Islâmico. Lembra que, naquela região, a violência é “normal”, de modo que um Estado que usa a violência é visto como “normal” também. Explica que a população do Iraque, por exemplo, vivia sob a violência da polícia estatal e a corrupção do partido de Saddam Hussein. Então, a brutalidade atual não é coisa nova. E a reportagem cita um entrevistado que diz: "Você pode viajar de Raqqa a Mosul e ninguém terá coragem de parar você, mesmo que você esteja levando 1 milhão de dólares. Ninguém vai-lhe tirar um dólar sequer." (Raqqa é a capital do Estado Islâmico na Síria). E completa dizendo que não é uma vida feliz, mas vive-se em paz a maior parte do tempo.

É que o Estado Islâmico acaba com a corrupção; acaba cortando as mãos dos ladrões. Mas é um Estado violento, sufocante.

Por aqui, no Brasil, os deputados rasgam a Constituição Federal, suspendendo os trabalhos antes de cumprir o dever de votar a lei das diretrizes orçamentárias (Art 57, § 2). Olhando daqui do sitio, parece que estamos em um momento crucial. Ou fazemos a democracia funcionar ou acabamos em uma tirania qualquer. E Platão volta ter razão.

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