sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

NOSSOS VALORES E SEUS PREÇOS NO MERCADO

A fiança livra da cadeia. É a lei. Lei antiga. Quem é muito pobre, fica preso logo de cara. O dinheiro sempre deu poder de comprar coisas que, ao que parece, não deveriam estar à venda por razões éticas. Mas, ao longo do tempo, há períodos em que a ética dá lugar ao cinismo. Já se definiu um cínico como sendo o sujeito que sabe o preço de tudo mas não sabe do valor de coisa alguma*.

Michael Sandel, professor de filosofia em Harvard, tem alertado para o fato de que estamos terceirizando nossos valores morais... Há cinquenta anos o dinheiro estava mais a serviço das pessoas; hoje, as pessoas estão, cada vez mais, a serviço do dinheiro. Estamos indo rapidamente de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado: uma sociedade que deixa de pensar, e passa a crer que o mercado é que sabe o valor das coisas.

Quando eu era criança, na década de 50, um carro era admirado porque tinha motor V8 e não porque custava muitos mil dólares. Nasci logo depois da Segunda Guerra. Lutar pelo País, defender o achávamos correto, eram sentimentos comuns. Estávamos errados?

Hoje, jovens escolhem a profissão por dinheiro. Poucos querem ser heróis. Os hospitais particulares fazem cesarianas em 80% dos partos, enquanto a média aceitável pela Organização Mundial de Saúde são 15%. Os políticos não discutem as questões públicas, discutem seus ganhos; e não têm vergonha de serem assim. Os cartões de crédito cobram juros de 200% ao ano.

Voltando ao professor de Harvard, Sandel revela que, hoje, uma cela de luxo em Sta Barbara, na California, pode ser conseguida pelo detento que estiver disposto a pagar $90 por noite. Mas ele mostra também um exemplo contrário. Aconteceu na Suíça: perguntaram à população de uma cidadezinha se aceitariam receber lixo nuclear por estarem no local mais indicado. Fizeram uma pesquisa de opinião: eles aceitaram (51%). Mas, em outra pesquisa, quando ofereceram 8 mil dólares anuais por habitante para aceitarem esse lixo, aí então recusaram (só 25% aceitaram)! Não estamos à venda! Nos sacrificamos por amor ao país, mas não por dinheiro! (https://www.youtube.com/watch?v=GvDpYHyBlgc)

Enfim, que mal há em que o dinheiro diga qual é o valor de tudo?

Alguns casos esclarecem a inconveniência disso. Por exemplo, se permitíssemos que o mercado comandasse a sociedade, então os imensamente ricos poderiam matar à vontade e depois comprar sentenças de absolvição. O País poderia ser vendido a outros países, justamente por seus governantes.

Mas a consequência mais devastadora é o crescimento da violência. Quando o mercado substitui a ética, a política falha. As questões públicas deixam de ser tratadas. E, quando a política falha, resta a guerra, restam as armas. Dar-se conta disso já é meia solução para o problema.



* Oscar Wilde, Lady Windermere's Fan, 1891.

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