Não adianta: o corrupto tem um prestígio inesgotável entre os eleitores. Sendo impedido de se candidatar, vai um amigo ou algum parente como candidato no lugar dele. E o povo então elege esse desconhecido, dublê do corrupto. Se o condenado não pode, pode o sócio, pode o irmão. A Lei da Ficha Limpa não dá conta desse impulso incontrolável.
Os vigaristas são, em geral, simpáticos. Não tratam de assuntos incompreensíveis: nada de abstrações como Constituição, República, Justiça, Dignidade e coisas assim. Nada dessas coisas difíceis, como cronogramas, prestação de contas... Apenas, de vez em quando, mesmo fora do período das eleições, aparecem nas comunidades. Distribuem agrados. Basta isso.
A democracia é o governo do povo. E o povo age assim. A voz do povo é a voz de Deus. E lá se vão os corruptos, ungidos, aclamados pela multidão.
Alguns cidadãos, no entanto, não se conformam com esse triunfo democrático dos ladrões. Ficam cismados com essa resposta esquisita que a democracia lhes dá. Buscam explicações. E dizem que a nossa democracia é novinha, incipiente, e precisa ser educada. Vamos tutelar a democracia! O povo é soberano, “pero no mucho”. Não se trata de cortar a soberania popular, vamos só podar um pouquinho. E assim, esse punhado de heróis, já que ninguém mais se importa, inventa leis como a Ficha Limpa. Criam leis em uma tentativa de ensinar, de orientar. Mas leis assim, estranhas aos hábitos da população, provavelmente acabam desrespeitadas. E surtem o efeito contrário: o povo aprende que as leis não são para valer.
Talvez, diante desse quadro, alguns idealistas fiquem deprimidos. Um caminho para se livrar disso é imaginar que as coisas podem se corrigir sozinhas. O Brasil é um país unido, enorme, apesar de todas as probabilidades contrárias.
Ou então, que valha a frase do ecologista francês: “Não sou pessimista, é tarde demais para isso.”; e continua atuando animado, indiferente ao quadro desanimador.
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
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Um comentário:
Gostei , Marcos !
Simples , objetivo e denso! Eu tenho muitas percepções, impressões e mesmo sentimentos que me identifico com voce. Atualmente estou trabalhando muito a minha subjetividade e a grade de valores sócio-filosóficos sobre o pessimismo que se instalou dentro de mim. Sofro com isto. A esperança é fundamental para se viver e se sentir participante da história. Sem esperança não tem nem educação, psicanálise, amor , o "escambau"Pois é, preciso reencontrar a esperança. Ser feliz dentro de casa com a mulher e os filhos que voce ama e que lhe amam, não é absolutamente suficiente ...abração
Ricardo
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