quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

UM TABU HORROROSO

Quem ouve os repórteres de Pernambuco fica com a impressão de que as pessoas não morrem mais. É muito pior: “vão a óbito”. Assim, o sujeito diz no noticiário: "Foi a óbito". Pronto! E lá está o espectador, hipnotizado, aparvalhado. Puro horror. Até o português usado é horroroso.

Muita gente não fala da morte com naturalidade. No entanto, contrariando essa turma, há indícios de que se deve encarar o assunto, isto é, se deve falar da morte normalmente porque, afinal, a morte faz parte do processo natural.

A mim me pareceu que, pelo menos em uma situação, falar com simplicidade da morte foi vantajoso. Faz uns 25 anos. Um amigo, enfrentando hostilidade em uma situação tensa, disse, calmissimamente, que não tinha o menor medo de nada – para ele tanto fazia estar vivo como morto. Se não tinha medo da morte, realmente não tinha razão para temer coisa alguma. Saiu ganhando. Sem medo, não se submeteu a nada nem a ninguém.

Mas essa dúvida – falar ou não da morte - tem bem mais que 25 anos e não precisa se limitar ao caso acima. Há muito tempo, em 1572, Montaigne escreveu um ensaio* defendendo a idéia de que – sem vencer o medo da morte – não se aproveita a vida. E justificava sua posição argüindo que os Parlamentos mandavam os criminosos de volta para serem executados nos lugares onde haviam cometido os crimes. No caminho, lhes davam todas as regalias. Será, no entanto, que aproveitavam? Quantos saboreavam tranqüilos esses últimos privilégios? Ora, a morte é também o nosso destino. O remédio vulgarmente receitado é não pensar nela. Mas como não pensar nela? Que bruta estupidez é essa, que recomenda uma falta de visão tão grosseira?

Como não ver? Como não saber da morte, se aprendemos que Cristo morreu aos 33? Como deixar de saber da morte do vizinho? Assim como todo o mundo, o próprio Montaigne teve exemplos próximos: um irmão dele morreu aos 23 anos. Estava jogando “jeu de paume”, um esporte ancestral do tênis, e levou uma bolada na cabeça, perto da orelha direita. Não ligou. Seis horas depois, morreu. Como não encarar isso?

Vai-se fugir também das cerimônias fúnebres? Como não pensar na morte, passando por cemitérios e templos onde se ampliam formidavelmente o mistério e o medo? Quem teme a morte fica mais apavorado ainda quando o foco passa do natural para o sobrenatural.

Estar consciente parece ser melhor do que estar despreparado. Desconhecer a morte ou mesmo desconhecer a velhice não parece razoável. A história conta que um guarda de César – já bem combalido pelo tempo – veio pedir permissão para que pudesse se afastar e então pôr fim à própria vida. Sentia-se agora incapaz para a função. César respondeu: “Tu pensas então que ainda estás vivo?”.

Enfim, parece que ter consciência dos limites naturais, encarar, enfrentar a morte, não significa sofrer por antecedência, não significa se entregar, ao contrário: sofre-se menos, vive-se mais, quando se está livre do medo. Talvez o objetivo da filosofia seja mesmo essa terapia...

* Philosopher, c'est apprendre à mourir.

4 comentários:

Canavarro Telecom disse...

Grande Marco Sampaio... Saudações Telpeanas... Bela reflexão da vida...

Taciana Brown disse...

Não sei se seria uma terapia pensar na morte… Talvez sim. Quando penso na morte dos que amo sinto muita vontade de me "despedir "da melhor maneira . Parece piada fatalista mas é a mais pura verdade. Logo acabo por valorizar cada instante com cada um que amo. Viver o presente com a mais verdadeira vontade e inteireza. Penso na morte todos os dias. Algumas pessoas não entendem esse meu pensar . Mas o fato é ; A finitude existe e saber disso me da mais vontade de viver antes que tudo isso acabe. Tenho medo sim de morrer, mas tenho muito mais medo de perder as pessoas que amo. Ou pior , tenho medo de não saber aproveita-los enquanto vivos no presente e lamentar no futuro. Logo, pensar e saber da morte todos os dias me faz valorizar a vida . Beijo meu pai querido !

Unknown disse...

A morte sendo inevitável nos dá duas opções: ou vive com medo dela ou aceita, no fundo todos tem um pouco de medo do desconhecido, e aí o sobrebatural entra, mas acredito que viver o presente é a maneira mais inteligente de encarar isso, e o fato da morte ser inevitável e imprevisível nos dá a possibilidade de encarar ela com naturlidade, aceitar o estranho, já pensou se todos nascessem sabendo a data de sua própria morte? Eu acho que muitos não aguentariam a pressão e o medo, e acabariam se suicidando.

Adriana Svacina disse...

Marcos, uma das melhores coisas que me aconteceu na vida foi mesmo perceber que não há porque ter medo da morte. Na verdade ela serve para duas coisas: deixar de postergar o que é importante (aquilo que, daqui a cinco anos, será ainda importante e/ou memorável)e servir de alívio. No final de tudo, pelo menos existe a morte. Se for tudo tão ruim assim, ora, ela está a disposição para acabar com o sofrimento. E nunca o sofrimento é tanto, diga-se de passagem. Mas, se for... Ufa!
Agora, o pior é a vida, com certeza. Essa me assusta de vez em quando. E a possibilidade do sofrimento, mental ou físico, essa mete medo. Torço pela boa vida, sempre.