quinta-feira, 23 de junho de 2011
Um resumo particular de "A República", de Platão
“A República” merece uma releitura. Faz ver com clareza o que se passa hoje na ética e na política, mesmo tendo sido escrito uns 380 anos antes de Cristo. Se a linguagem original, lenta, não atrai mais, o remédio parece ser a forma resumida, concentrada. E assim, neste resumo, como em qualquer outro, termina-se excluindo muita coisa. É, por exemplo, o caso de um trecho famoso (Alegoria da Caverna), que não coube aqui porque foge do assunto principal, qual seja, ética e política.
Seja como for, no livro, Platão relata conversas de Sócrates. E, nessas conversas, logo perguntam se haveria uma maneira de alguém, ao final da vida, sentir-se em paz consigo mesmo, por ter sido justo.
Antecipadamente os personagens reconhecem que esse assunto, normalmente, não interessa. Saber o que é ser justo? Isso é coisa para velhos ociosos ou pessoas que tenham dinheiro herdado. Os outros se ocupam só com seus assuntos: os poetas amam a poesia e os homens de negócio se interessam unicamente por sua própria riqueza.
O fato é que interessou ao Sócrates e a outros – ociosos e com dinheiro suficiente – saber o que é agir com justiça. Primeiro, pareceu simples ser justo: bastaria não enganar ninguém e dar aos outros o que fosse deles. Mas logo se viu que há casos em que o homem justo deve enganar e ficar com o que não lhe pertence.
Evoluíram então para dizer que a justiça consiste em fazer bem aos amigos e mal aos inimigos. Mas, e se não há guerra? Como age o homem justo em um ambiente pacífico, em que não há inimigos? Torna-se inútil?
E assim foram remendando as definições. Até que, mesmo não chegando a um texto preciso, acabaram reconhecendo que quem é justo muitas vezes sai perdendo. E não aceitaram isso. Embora hoje muitos defendam que se deva agir corretamente, sejam quais forem as conseqüências, Sócrates e seus amigos queriam mostrar que vale a pena ser justo.
E assim começam a admitir que a justiça funciona como coisa coletiva: resulta de um acordo. Por isso, a justiça gera concórdia e amizade, enquanto a injustiça incapacita de agir de acordo consigo mesmo. Assim, a injustiça incapacita seja uma nação, um exército ou qualquer coisa. Os maus e injustos são incapacitados na mesma medida em que são maus e injustos, porque plantam um desentendimento interno.
O conceito de justiça é assim ligado aos conceitos de unidade e harmonia. A justiça concilia atividades e propósitos diferentes; concilia forças que existem dentro do ser humano assim como dentro da cidade. O injusto não consegue atuar com coerência, contradiz a si próprio. Na comunidade, a injustiça gera ódio, revoltas e contendas.
Por esse caminho, a ética desemboca na política e “A República” relaciona a ética dos indivíduos à política das cidades. A cidade, assim como a alma das pessoas, teria três impulsos diferentes: o apetite, o espírito e a razão. Explicando melhor, haveria dentro de nós uma parte que pede sexo, dinheiro, prazeres. São apetites. Outra parte pede coragem, ânimo, honra: é o espírito. Finalmente, uma terceira parte da nossa alma pede conhecimento: é a razão. E assim a justiça assume a importância maior de manter a unidade da alma, com harmonia, equilibrando apetite, espírito e razão.
E prosseguem, imaginando como seria uma cidade ideal. Afinal, acabam concordando em que a cidade ideal é aquela que todos amam e defendem porque consideram como sua. E como se constrói uma cidade assim, com todos unidos por ela?
Tratam então da importância da educação pela música e pela ginástica. Preocupam-se mais em educar para forjar o espírito. O espírito é que dá rumo. Vale dizer aqui que talvez hoje o ensino tenha como objetivo ensinar técnicas para satisfazer aos apetites e não se preocupe com o espírito. Por exemplo, que programa de ensino exalta a coragem?
Finalmente, “A República” trata das formas de governo: aristocracia, timocracia, oligarquia, democracia e tirania. Descreve cada uma delas, mostrando sempre uma correspondência entre os tipos de governo e tipos de homem.
Nessa linha, a democracia é apresentada como o governo dos homens que amam a igualdade. E a democracia, em sua busca incessante por mais e mais liberdade acaba impossibilitando o funcionamento da cidade. Em meio ao caos, os mais violentos passam a mandar e a democracia acaba em tirania.
NOTA
Tradicionalmente os trechos de “A República” são numerados. Anotei como mais relevantes os seguintes:
330 - Assunto para velhos remediados e herdeiros ricos. Homens de negócio só tratam de seus negócios.
331 - Justiça baseada em regras – contra-exemplo do amigo que guarda armas do outro, que vem buscá-las enlouquecido
343 - O injusto muitas vezes tem melhores resultados
351/352- Justiça gera concórdia e amizade; injustiça incapacita de agir de acordo consigo mesmo
354/433 - O que é justiça? O homem justo é feliz? Argumentos teleológicos!
359/360 - Justiça resulta de um acordo; a justiça só é um bem para si se houver reciprocidade. Discussão sobre o indivíduo passa a discutir a cidade.
369/441/443/462 - Uma cidade imaginária; divisão das tarefas; harmonia; unidade como bem
432/435/440 - A cidade, assim como a alma, tem 3 partes: razão (temperança, harmonia, justiça), apetite (ciência, sexo, dinheiro) e espírito (coragem, animosidade, honrarias, prestígio).
389èOs chefes da cidade podem mentir
424 - A música interage com as leis
427 - As quatro virtudes: sabedoria,coragem, sensatez e justiça. O que é justiça?
395/396 - Não imitar os inferiores
377/401 - Educação pela música e pela ginástica
460 - Eugenia: jovens que se destacam devem ter mais mulheres
461/462etc. - comunismo, mulheres e bens em comum
508 - A luz quando aparece revela o que há.
514 - Alegoria da caverna: vemos apenas a sombra da realidade
543 - Cidade administrada pelos que mais se distinguiram na filosofia e na guerra
544 - Tipos de governo correspondem a tipos de homens. Principais são aristocracia, oligarquia, democracia e tirania. Elogio à aristocracia.
545/547/548549 - Timocracia,o homem timocrata
551 - Oligarquia, piloto escolhido pela tributação,
554 - O homem oligárquico
557 - Democracia resulta da vitória dos pobres
561 - Homem democrático ama a igualdade
562 - Busca por mais liberdade desgraça a democracia e leva à tirania
601 - Arte é imitação e portanto não tem seriedade
604 - Conservar a calma nas desgraças
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