quinta-feira, 1 de julho de 2010

QUE LIBERDADE SE DESEJA?

É meio arriscado tentar definir o que seja liberdade, no campo da ciência política. Talvez até não caiba mesmo uma definição exata, e seja melhor configurar apenas uma noção. E essa noção de liberdade viria então de admitir que:
1. A diferença entre um tirano e um homem de boa vontade é que o tirano tem sempre a certeza de seus objetivos, enquanto o homem de boa vontade, a cada passo, pergunta a si mesmo: "isso que estou fazendo, realmente contribui para aumentar a liberdade das pessoas"?
2. O amor à liberdade é um amor ao outro; o amor ao poder é um amor a si mesmo. Se alguém diz que quer liberdade para si e não se importa com os outros, então não quer liberdade, quer poder;
3. A única liberdade de que eu falo é uma liberdade ligada à ordem, que não apenas perdura em um ambiente de ordem e virtude; mas não existe de forma alguma sem isso. Em outras palavras, para que se tenha liberdade, é preciso restringí-la.
Essas três referências à liberdade devem-se respectivamente a Simone de Beauvoir, Hazlitt e Burke. Acredito que, juntas, sejam suficientes.
Tem sido comum definir liberdade (“liberdade negativa”) apenas como sendo ausência de barreiras, ausência de impedimentos, de coerção; uma vez definida assim, no entanto, acaba dando abrigo a tudo. Essa “liberdade”, com essa amplidão toda, serve a qualquer propósito, inclusive à coação. Não permite mais distinguir o razoável do absurdo.
E uma questão crucial em ciência política é justamente distinguir em que casos a intervenção do estado protege a liberdade do indivíduo, e em que casos prejudica essa liberdade. As situações retratadas abaixo ilustram bem isso:
1. Se um guarda bloqueia uma estrada porque uma ponte caiu, está prejudicando a liberdade de ir e vir do cidadão? Provavelmente, não;
2. Mas, e se a polícia tira de casa, pelo uso da força, uma família que teima em ficar em uma encosta com risco de desabamento? Há, no caso, interferência abusiva do estado na vida do cidadão? Talvez.
3. Nas disputas entre cidadãos, por exemplo, entre produtores e consumidores, em que casos o estado deve intervir? O produtor deve ser livre, por exemplo, para vender comida contaminada sem que o consumidor comum se dê conta? O estado não teria nada a ver com isso?
Enfim, não há como generalizar: às vezes o Estado deve intervir em maior grau, ou em menor, em nome da liberdade. Às vezes não deve intervir. A liberdade exige, antes de tudo, consideração. E amor ao próximo. E respeito à ordem.

Um comentário:

Taciana Brown disse...

Eu penso igual a vc meu pai. É preciso se questionar sempre. E saber se colocar no lugar do outro. Ter sempre certezas absolutas me parece arrogância. beijo grande!