domingo, 26 de julho de 2009
O QUE ESPERAR DOS OUTROS – O OBAMA TEM RAZÃO
Há alguns anos, fazendo uma pesquisa para avaliar os costumes em uma empresa, distribuímos um questionário para mais de mil empregados. Escondidas entre as outras perguntas fizemos duas especiais; a primeira delas era: “Você ajuda os outros no trabalho?” Mais lá adiante, vinha essa outra: “Os outros ajudam você em seu trabalho?” Cerca de 90% disseram que davam ajuda aos outros; mas, por outro lado, cerca de 90% disseram que não recebiam ajuda. Então, diante de tanta gente se declarando disposta a ajudar, como seria possível que quase ninguém recebesse ajuda?
Talvez a explicação seja simples, natural até. Julgar a si mesmo com benevolência e aos outros com rigor; dar privilégios a si mesmo, escolher a fatia maior - isso seria um “direito natural”. E o Aristóteles até explicou, com um exemplo: habitualmente um mesmo recipiente era usado, tanto na compra como na venda do vinho; mas admitia-se como normal encher mais quando comprando, e menos quando vendendo... Essa margem seria natural, uma folga lícita no jogo. Pode soar esquisito, mas vale lembrar que, naquela época – uns 350 anos antes de Cristo – a escravidão também era considerada natural, normal: havia escravos de várias raças; e depois nem Cristo se manifestou contra ela.
Talvez o Sartre tenha esclarecido a questão mais um pouco em “O encontro com o outro”, fazendo considerações sobre a vergonha. Ocorre que, quando percebo o Outro, surge na situação um aspecto que eu não controlo, que me escapa; eu já não sou o senhor absoluto. Dou-me conta de mim mesmo e me vejo porque os Outros estão me vendo. E depois, mesmo absolutamente sozinho, por vergonha, deixo de seguir o meu impulso inicial e passo a agir contrariamente a minhas antecipações e desejos. Resumindo: ao mesmo tempo em que os Outros me tornam consciente de mim mesmo, me impõem restrições e limites.
Ruminando então um pouco mais, parece certo dizer que a minha reação diante dos Outros depende das expectativas que eu vier a ter sobre eles. Quando os Outros me tornam consciente de mim mesmo, posso ter vergonha de mim, mas posso também ter orgulho, dependendo da situação. Assim como o Sartre elegeu a vergonha como linha condutora do seu pensamento, se poderia escolher a sensação de orgulho, que também pode ser natural. O Homem é um animal gregário, há muito tempo vive em bandos. O seu modo de agir vai depender do ambiente, da cultura, do estágio de civilização. Hoje já não toleramos a escravidão; sentimos agora repulsa, naturalmente.
Tudo leva a concluir que tratamos o Outro de acordo com nossas sensações, ou seja, segundo nossas expectativas, de acordo com nossos preconceitos. E as expectativas, os preconceitos, por sua vez, dependem do ambiente. Em um ambiente em que prevaleça o costume de avançar e reduzir o Outro ao mínimo, isso acontecerá. Em um ambiente em que os Outros forem vistos como oportunidades de associação, isso acontecerá. Ou seja, a profecia que fizermos coletivamente será realizada.
Se isso é verdade, o mais importante a se disseminar, a educação mais básica, consiste em ensinar a ter esperança, a achar que é possível. O Obama tem razão...
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2 comentários:
Marcos,
Qual o livro de Sartre onde se encontra a reflexao sobre o Outro - O Inferno Sao os Outros?
Gostei da reflexao.
Abraço
Paulo G Cysneiros
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