quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

UM POEMA DO DRUMMOND

Os ombros suportam o mundo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade - Antologia Poética




Se chegamos a esse ponto, como foi mesmo? Medimos e contabilizamos tudo, dissecamos a alegria?


4 comentários:

ze mauro disse...

Felizes os que chegaram a esse conhecimento,pois só é dado a quem muito viveu, o poder de contemplar e entender o nascente e o poente da vida. Agradeçamos sempre pelo que somos e pelo que seremos. abraço

Adriana Svacina disse...

Isso é o complemento da ruminação anterior. Viver anestesiado pela própria vida é estar morto sem saber. Mas será que essa incapacidade toda de sentir é isso mesmo, ou justo o contrário?

Ana del Pilar disse...

Confesso que não sinto assim, ainda me surpreendo, me emociono,amo,choro, rio,e isto não me impede de ver a vida, apreciar com certa calma,apenas isso..não gosto dessa apreciação "fatalista" da vida, o Drummond me perdoe, gosto dele , de seus poemas de amor.
Pretendo viver assim..de forma intensa, profunda, até o ultimo suspiro..sempre permitindo a vida me surpreender!

Unknown disse...

Só para você saber que eu li. ;) Beijo.