A lógica do Inferno é, basicamente, pagar pelo erro, retribuir. É um castigo irreversível, aplicado aos erros graves. Ninguém volta do Inferno. Fica lá pagando pelo que fez.
E ainda, enquanto o condenado responde pelo mal que causou, vai dando um exemplo dissuasivo. Por conta do Inferno, todo o mundo pensa duas vezes antes de cometer um crime.
Já a lógica do Purgatório é diferente: reabilitar. Aplica-se a faltas mais leves. Vão passar um tempo no Purgatório os que cometeram erros menores. Passam por lá em um processo educativo e depois vão para o Céu.
O que confunde um pouco tudo isso é outra lógica: a lógica do perdão, da misericórdia. Aliás, esse não é um tema novo. Em 1655 o Padre Antônio Vieira pregou o Sermão do Bom Ladrão, justamente para falar sobre a impunidade; afinal, Deus perdoou o ladrão arrependido. Ambos, Cristo e o Bom Ladrão, morreram na cruz. E, ao morrer, o Rei levou o Bom Ladrão consigo para o Paraíso.
Mas o Padre Antônio Vieira, há 358 anos, percebeu que os cristãos entendiam mal esse exemplo de Cristo. Equivocavam-se quanto ao conceito de misericórdia. Não se devam conta de que só o ladrão arrependido de verdade havia sido perdoado. Generalizavam o perdão, interpretavam mal a história e passavam a perdoar todo o mundo, incluindo o mau ladrão.
Assim é que, em 1655, no mesmo sermão, já o padre argumentava contra a impunidade dizendo que, desse jeito, sem justiçar os malfeitores, em vez de os reis levarem consigo os ladrões para o Céu, estava acontecendo o contrário: os ladrões estavam levando os reis para o Inferno.
Parece que, no Brasil, o conceito de misericórdia continua sendo mal entendido. Ficou reverberando no inconsciente coletivo: “Perdoai”. “Não julgueis!”. Pelo que se vê, acredita-se hoje que castigar é mau. Os pais não castigam. Os professores não castigam. Os juízes não condenam.
Principalmente, foi banido o castigo para pagar pelo que fez, para retribuir. Não se castiga para dar o exemplo, para dissuadir. Também não se castiga para evitar a reincidência, ou seja, também não se castiga isolando o condenado para que não possa repetir o crime. Rarissimamente se faz isso. O objetivo do castigo é – em regra - a reabilitação.
É como se não houvesse crime grave; todos serão reeducados, voltarão ao convívio social. O Inferno fica vazio. Resta só o Purgatório. Mas será que o Inferno fica mesmo vazio? Ou será que o Inferno agora é aqui?
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3 comentários:
Gostei Marcos
Abraço, Paulo
Segundo Caetano, o Haiti é aqui. Dá o que pensar...
oi Marcos ... fui tocado por sua crônica. Excelente ligação entre o texto do Papa e a realidade que existe na sua vizinhança. Não haveria clima para se iniciar uma ONG com o objetivo de ressuscitar o Beberibe? Acredito que haveria algumas pessoas e empresas em Recife que estariam dispostas a ajudar. E certamente alguns amigos de um outro Rio ...
forte abraço
Roberto Gadelha
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