quarta-feira, 10 de julho de 2013

EDUCANDO EM 1960 ATRAVÉS DE MÁXIMAS E PROVÉRBIOS

Em 1960, no Rio, mais precisamente, no Colégio Santo Inácio, cada aluno tinha uma agenda com espaços reservados, em cada página, para uma máxima e um provérbio.

E chegava uma hora do dia em que as quatro turmas da mesma série iam para uma sala muito grande: o “Estudo”. Era então que as frases eram copiadas. Iam para a agenda aqueles pedaços de sabedoria concentrada: uma máxima e um provérbio.

Isso foi há 53 anos. Naquela época o espírito crítico era incentivado. Supunha-se que os meninos iriam ler o que haviam escrito. Esperava-se que pensassem um pouco. Dessa forma, questões abstratas eram levadas a serem consideradas. Os alunos iam percebendo a necessidade de haver normas, orientações, diretrizes. Por outro lado, iam percebendo que essas generalizações são limitadas, não servem para aplicação automática: tudo depende das circunstâncias.

Mas vamos de volta para os dias atuais, e lá estou eu de novo a tropeçar em ditados, citações e coisas do gênero. Estão lá, em livros antigos, que me atraem mais. É que os livros com mais de cem anos parecem muito mais verdadeiros do que os lançamentos recentes. Aliás, lançamentos recentes... Lançamentos? De livros? Lançar flechas, ou mesmo lanças, como o verbo sugere, faz mais sentido. Lançar livros não parece um gesto sensato... O fato é que os clássicos estão aí, mesmo sem terem sido lançados, sem terem motivo comercial. E ainda hoje podem ser baixados de graça como e-books. Atravessam os séculos à margem do mercado; sobreviveram sem dar lucro esse tempo todo; hão de ter alguma coisa de especial, essas obras velhas.

Talvez esta ruminação devesse parar por aqui porque, afinal, atualmente se diz que, para o bom entendedor, meia palavra basta. No entanto, contradizendo isso, uns 20 anos antes de Cristo nascer já se cogitava de não tentar ser muito conciso. O empenho em dizer logo, em ser rápido, sacrifica a clareza: "Brevis esse laboro, obscurus fio.” (Tento ser breve, sou obscuro. Horácio, Ars Poetica 3).

Sendo assim, para ser melhor compreendido, prefiro seguir esse conselho mais velho e me alongar um pouquinho. Mas, afinal, para me assegurar mesmo, para ter certeza de que fui claro, melhor ainda seria seguir o conselho de Sto. Agostinho, conselho aliás dado por escrito no ano 391 d.C.: “Audi partem alteram”. (Ouve a outra parte. De Duabus Animabus, 14, ii). Quem sabe, afinal, a outra parte - no caso o leitor - deixa algum comentário...

6 comentários:

Hilton Losant disse...

Santo Inácio - São Clemente - Botafogo - Rio de Janeiro - Cidade Maravilhosa... Lá se vão anos...
Ao contrário do Colégio São Bento, à época este aceitava meninas... Ah! as meninas...
Independentemente de máximas e provérbios o que pude deduzir de mais uma feliz ruminação foi o saudosismo, típico de quem viveu sua plenitude em outra época.
Não estou chamando meu caro ruminador de retrógrado, ultrapassado ou outro termo que o valha, mas vejo nas entrelinhas um voltar na época em que o detalhe aqui colocado é mero pano de fundo para outras coisas que o experiente ruminador deixou na obscuridade ou, intencionalmente, para que o leitor atento buscasse a razão primeira, a verdadeira intenção, por isso sacrifica a clareza: "Brevis esse laboro, obscurus fio.” para “Audi partem alteram”. Genial, conseguiu... Parabéns!

Roberto Gadelha disse...

grande Marcos: estou contigo ou não dependendo da tua definição de "clássico". Negativo se forem apenas os livros escritos originalmente em latim. Mas estamos totalmente de acordo se incluir os melhores livros de "modernos" tais como Montaigne, Flaubert, Fernando Pessoa, Graciliano Ramos ... e até mesmo algumas obras de autores ainda vivos: não gosto de quase nada escrito pelo João Ubaldo mas curti muito o "Sargento Getúlio" que diria ser um clássico da literatura brasileira.

André Queen disse...

Concordo 100%, Marcos!!! Não aguento mais esse oba-oba ignorante!! Hoje, falta humildade frete à nossa história a ao acervo disponível. Abração, Deco

Ricardo Alessio disse...

Aí Marcos
Gostei muito da sua reflexão. Ouvir, ouvir, analisar analisar...
É isto aí meu amigo a historia é absolutamente nossa mestra... como le-la ? Estes dias eu vi e ouvi na TV CURTA um pequeno filme sobre MONTAINE. TENHO CERTEZA QUE VOCE IRIA TAMBÉM GOSTAR MUITO. ABRAÇOS
RCIARDO

ze mauro disse...

danOs provérbios podem ser universais(de concordância unânime),ou individuais(de concordância relativa).
Aqueles são irrefutáveis ,irretocáveis , criados por inspiração de pessoas famosas ou não , porém perfeitos.
Estes , são aceitos mais pelo interêsse da verdade de cada um, são incompletos, às vezes até tendenciosos.Os mais enganosos são
os ditos por "personalidades",que confundem fama com sabedoria.
Os bons provérbios,são ensinamentos que,se seguidos, redimem e aperfeiçoam o caráter.
abraço zema

Pedro Sampaio disse...

''Tento ser breve, sou obscuro'' é bem a cara de recife, e para o bom entendedor, a meia palavra basta se for bem pronunciada! Abraço do seu neto.