sexta-feira, 28 de junho de 2013

A MULTIDÃO CERCA O SENADO HÁ 2.230 ANOS

Vendo as ruas tomadas por nossas mobilizações contra mazelas em geral e, de vez em quando, lendo os ensaios de Montaigne, acabei embaralhando as histórias. O que eu lia pareceu ter alguma relação com o que estava aparecendo na TV. Os escritos pareceram familiares. As imagens e declarações que a televisão mostrava neste junho de 2013 acabaram ligadas aos escritos do século 16 que, por sua vez, descrevem coisas acontecidas há mais de dois milênios. Vamos ver se, assim como eu, o leitor acha que histórias antigas, de repente, voltaram. Reaparecem agora com uma roupagem um pouco diferente, como reprise de novela.

Então, voltamos ao ano 217 a.C., quando Aníbal vinha avançando com o exército cartaginês sobre território romano. Em Cápua, o magistrado Pacuvius Calavius, apoiado pelos senadores, queria resistir. Ao contrário deles, o povo não queria guerra, queria paz. Queriam que fosse logo negociada uma rendição. A população estava furiosa com os senadores. Era o senado contra o povo. E o povo foi às ruas: cercou o senado. Não foi ontem em Brasilia, foi em Cápua, há 2.230 anos.

E eis que apareceu o Pacuvius Calavius. Com os senadores trancados dentro do senado, propôs ao povo que fossem então retirados um a um, para serem executados. Mas só se faria isso depois de um tipo de plebiscito: só se liquidaria um senador depois que o povo escolhesse outro como substituto; um político bom no lugar de um político mau.

Houve um longo silêncio. Ninguém na multidão sugeria um nome. Até que alguém fez isso: criou coragem e indicou seu candidato para primeiro novo senador! Mas o que se ouviu foi um clamor contra si: ainda maior do que a gritaria havida contra o senado. Outros nomes foram apresentados. Em vão. A multidão não se entendia. Dispersaram-se.

Muitos anos mais tarde, em 44 a.C., Cícero (De Officiis, i, ii) resumiu esse comportamento turbulento em uma frase: “Desejam não tanto substituir, mas destruir as coisas”. (Non tam commutandarum quam evertendarum rerum cupidi.) Quem vai às ruas hoje no Brasil pretende o quê? Se as passeatas não querem apenas destruir, querem substituir qual coisa por qual coisa?

Tudo indica que o povo brasileiro deseja uma mudança muito ampla. Não queremos só novos políticos: queremos novos costumes, novos hábitos, novas crenças. Chegamos coletivamente à conclusão de que a “esperteza” dá errado, que a burrice não deve ser acatada. Não acreditamos mais que haja um “jeitinho” para cretinice grossa. Mas essa mudança ética, que intimamente todos acham necessária, ainda precisa ser vivida. Os costumes de um povo não são mudados assim da noite para o dia. Enquanto isso, haja plebiscito.

6 comentários:

Hilton Losant disse...

Marcos,
Tenho que confessar que sou seu fã.
Diante do caos instalado neste país, vejo, pela primeira vez alguém colocando a questão, com a devida lucidez necessária.
O seu texto, baseado em fatos históricos, mostra que o que está ocorrendo no Brasil de hoje, nada mais é do que uma repetição do que ocorreu no passado bem distante... lógico;com atores e cenários diferentes... como você mesmo escreveu e que concordo por ser exatamente meu modo de pensar.
A multidão...Ah!, a multidão... O próprio "samba do crioulo doido"...Vai aparecer, não tenha dúvida um Pacuvius Calavius... E como, em 44 a.C., Cícero (De Officiis, i, ii) resumiu esse comportamento turbulento em uma frase: “Desejam não tanto substituir, mas destruir as coisas”. (Non tam commutandarum quam evertendarum rerum cupidi.)
Parabéns Marcos Sampaio... Parabéns por essa forma clara e importante de dizer o obvio que ninguém vê... Um forte abraço
Hilton Losant

ze mauro disse...

Imagine o mundo sem os homens.Animais e vegetais vivem a sinfonia"Natureza",composta em dois movimentos.Apesar de cataclismas constantes,vida e morte em harmonia ignoram a palavra Felicidade.
Aí,surge o homem,segundo movimento.
...E com ele as leis.Única espécie que precisa delas pra viver.Expressas em palavras,pedras ou taboas,chegaram a um congresso,último estágio dessa evolução,mas ele ainda deixa muito a desejar.Precisamos ouvir acordes finais mais criativos.
abr zema

Anônimo disse...

Meu prezado, visitarei isso aqui, já vi tudo, bem mais do que você merece.
Lógico que isso que assistimos é uma reação a uma série de coisas, começou pequena (a reação), uma moçadinha que não tem o menor conhecimento sobre a história do Brasil (quanto mais de Cápua...rs).
De repente as multidões tomaram as ruas e passaram a falar mais sério. Gente de todas as idades, pleiteavam algumas coisas interessantes e até conseguiram.
A 'turma da fuzarca' resolveu aderir (saudosa, com certeza de tempos não tão idos), e tentaram orquestrar, sugeriram lideranças, inventaram coisas...
Pelo FB gente que mal se conhecia (a não ser pelos pequenos retratos que nada dizem) passou a se engalfinhar e virou mesmo o 'samba do afrodescendente afetado psicologicamente', como imprudentemente disseram por aí à moda antiga...Voltaremos ao assunto, se for de seu desejo. Grande abraço!

Taciana Brown disse...

oO que você sugere que se faça meu pai ? Eu fiquei foi assustada. Vi e vivi muita repressão e injustiça da parte da policia. Toque de recolher e truculencia absurda. Não bastasse toda corrupção e impunidade agora estamos impedidos de irmos as ruas protestar nossos direitos , o mínimo de ética e respeito com o dinheiro publico?!
Isso gera sim mais revolta. Tenho medo de onde isso pode parar. Falaram que poderia virar um GOLPE ? Não sei da mais nada. Nào conheço quem queira tirar a Dilma do poder. Penso que não seria inteligente de nossa parte.
Só sei que ficar reclamando dos protestos e não buscar uma solução também não me parece muito produtivo. Não sei de mais nada. A História pode sim estar se repetindo. Mas desta vez temos a internet. Vamos tentar melhorar as coisas. Sim, aceitamos sugestões. Reclamar por reclamar fica pros mais revoltados. Eu prefiro observar e seguir meu coração buscando sempre minha razão. Estou confusa mas pelo menos estamos falando sobre o assunto =) Isso é muito bom !
beijos ! Sua filha, Tati

Rosileide disse...

Caro Marcos,
Muito bom ler textos tão ricos.
A falta de princípios em boa parte da humanidade não é privilégio da atualidade, apenas hoje acontece de maneira mais debochada, afinal, valores morais cada dia tem menos importância, hoje a valorização dos indivíduos se dá conforme o montante de sua conta bancária, a maior parte das pessoas estão preocupadas em conseguir "ganhar dinheiro", as profissões são escolhidas pelo status que podem proporcionar, muitas relações se dão pelo que o interesseiro consegue obter de seu mantenedor (consigo muito "amo" muito). Tudo que temos assistido é reflexo de gente que enxerga o furo na canoa, mas não enxerga o titanic em que navega. Acredito que felizmente embora essas pessoas que adoecem qualquer pátria ainda sejam minoria. Assim, acredito (como muito bem colocado no escrito) que a humanidade está ávida por ética, em todas as práticas.
Que venha um futuro onde o passado seja uma história de base para mudança.
Abraço
Rosileide Machado (Leide)

Anônimo disse...

Preciso deixar uma contribuição, se pudesse ser em latim, seria o ideal, certo?
Então tropeço na primeira que vi e tanto me impressionou na vida, fazendo-me ir atrás de suas verdades e as encontrando, graças a Deus.

" REVERTERE AD LOCUM TUUM "

Não é bem assim, mas isso fica para outras "ruminações", querido amigo Marcos.