sexta-feira, 29 de julho de 2011

NORMALIDADE E ANORMALIDADE

O bilionário George Soros tinha 13 anos e morava em Budapeste quando, em 1944, os nazistas invadiram a Hungria. Em uma entrevista que deu à revista Fortune em 27 de outubro de 2003, em dado momento, para explicar-se melhor, Soros resolveu contar sobre uma coisa muito importante que aprendeu nessa época. Guardei a entrevista principalmente por causa desse trecho.
Na Hungria ocupada, foram estabelecidas “Leis para os Judeus”. A maioria deles encarou essas leis como fato normal em uma guerra. E assim, os judeus de Budapeste seguiram agindo normalmente – obedecendo ao sistema como a maioria costuma fazer. Foram registrar-se. Infelizmente, depois de registrados, respondendo a uma chamada em ordem alfabética, foram mandados para os campos de concentração.
A família do George Soros, no entanto, se salvou. Escaparam porque o pai dele percebeu, de alguma forma, que não poderia seguir agindo normalmente. Essa foi a lição que ficou: a anormalidade requer uma resposta anormal. Forjaram documentos, mudaram de nome. Sobreviveram.
Como ele disse na entrevista, aprendeu assim a ver a importância de distinguir as situações “normais” daquelas em que há um desequilíbrio e não se pode mais seguir como se tudo estivesse bem. Essa foi a lição. Pareceu óbvia, banal, como muitas verdades importantes.
No entanto, não é fácil distinguir o normal do anormal. Não há nenhuma regra geral. A própria definição de “normalidade” é – na melhor hipótese – muito imprecisa. Fica a cargo do bom senso.
E a dificuldade aumenta quando falo de mim mesmo. É mais fácil ver a anormalidade nos outros, observando, como espectador. Os treinadores, em qualquer esporte, existem por isso. Ele está jogando muito mal! E eu, estou jogando mal? É mais difícil dizer. Perceber a si mesmo exige mais.
Mas a anormalidade mais dura de ser reconhecida parece ser a que afeta a nós mesmos de maneira gradual. Se, a cada dia, eu jogo um pouquinho pior, em que ponto vou dizer a mim mesmo que assim não dá?
Para concluir, parece claro que a noção de perigo só existe se tivermos uma noção de normalidade. Talvez o caso do Soros se explique porque a maioria não sabia bem o que seria “normal” em uma guerra. Se não há um padrão, não há como saber o tamanho do desvio. Creio que os adictos a drogas tem uma grande dificuldade em perceber o perigo. Também os idosos, quando vão permitindo a si mesmos relaxar as rotinas, cada vez mais. E assim, concordo com o Soros: perceber a anormalidade é decisivo.

Nenhum comentário: