quinta-feira, 8 de julho de 2010
O progresso moral e o Arnaldo Jabor
Não conheci o Arnaldo Jabor. Estudou no mesmo colégio, mas é mais velho. Mesmo assim, garanto que cantou o hino nas missas e em outras oportunidades:
Levantai-vos, soldados de Cristo,
Sus! Correi! Sus! Voai à vitória,
Desfraldando a bandeira da glória
O imortal Coração de Jesus.
Cantávamos assim. Naquela época era bom triunfar sobre os outros: sobre as outras religiões, sobre os outros times de futebol, sobre os outros países... Admirávamos os romanos e Napoleão, porque haviam tomado os territórios vizinhos. Assim como admirávamos os americanos, que haviam dizimado os índios e também haviam ocupado com brio e distinção o Texas. Felizmente o Texas havia deixado de ser dos mexicanos trapalhões. Quanto a nós, havíamos vencido os paraguaios. Éramos bons por isso.
Aprendia-se que era bom caçar, que havia glória em matar animais por puro prazer. Atirei em uma coruja uma vez, para nada. Depois olhei bem para ela, morta no chão, despedaçada; e fiquei perguntando a mim mesmo por que havia feito aquilo.
Aprendemos muito na Bíblia, no Antigo Testamento, que serve tanto a cristãos como aos judeus. Por exemplo, Javé (Deus) diz a Moisés (Números 31;1): “Execute a vingança dos filhos de Israel contra os madianitas”. Realmente, foi uma vingança e tanto. Esses madianitas sumiram do mapa – ninguém mais ouviu falar deles. O genocídio, a pedofilia, tudo era normal. Depois de haver derrotado o inimigo, Moisés diz (Números 31;17): “Agora portanto matem todas as crianças do sexo masculino e todas as mulheres que tiveram relações sexuais com homens. Deixem vivas apenas as meninas que não tiveram relações sexuais e elas pertencerão a vocês”.
Vim para Pernambuco aos 26 anos e ouvi o hino daqui, que diz: “Nova Roma, de bravos guerreiros”. Guerreiros. Tudo remetia o pensamento para a guerra. Contra os holandeses, contra o cangaço.
Mas, todos esses ensinamentos foram recentemente questionados na América. De uns cinqüenta anos para cá - não mais que isso - resolvemos mudar um pouco o discurso e talvez, quem sabe, até a prática. A idéia agora é ajudar o outro a viver, em vez de matar, como era recomendado. A vitória, o triunfo, acontecem agora em campos mais abstratos.
Intimamente, no entanto, muita gente não acredita que essa história de amor ao próximo seja viável. O homem é o mesmo. A ética, os costumes, a política, tudo isso vem do homem, que é o mesmo. O socialismo falhou por essa razão. O Arnaldo Jabor, então, pretende voltar às boas e velhas crenças. Pau no inimigo!
Contra o Jabor fica talvez o Sartre – já meio esquecido – dizendo que o homem é o único ser que existe antes de saber a que veio, o que veio fazer. Somos obrigatoriamente livres. E temos de escolher quem vamos ser; não podemos escapar dessa escolha. E assim, o progresso moral é possível – o homem pode mudar. É livre para ser o que bem quiser.
Podemos apenas fingir que não somos livres, e isso seria má fé. O progresso moral é possível. E já parecemos melhores do que éramos no Antigo Testamento. Ou não?
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4 comentários:
Qual é o pau que o Jabor está metendo? Em quem? Na nossa política internacional? Em Lula babar o saco de todo e qualquer ditador que ande por aí, e quanto mais autoritário melhor?
Adriana.
Trata-se de como o Jabor vê o mundo, inexoravelmente dividido entre amigo e inimigo: a necessidade de desqualificar, de diminuir, de ofender, a certeza absoluta de que o inimigo é o demônio e de que só pode fazer o mal, a impossibilidade de evolução moral. Critico nele o desequilíbrio, a convicção absoluta da maldade do outro.
Assim, condenou, gesticulando furiosamente, ofensivamente, o acordo entre os governos do Brasil, da Turquia e do Iran. Por exemplo, o trecho abaixo, extraído da revista Time, põe em dúvida as certezas do Jabor:
“State Department spokesman P.J. Crowley, however, criticized the Brazil-Turkey-Iran deal for failing to address the "core concern of the international community": the U.N. Security Council's demand, backed by existing sanctions, for Iran to suspend uranium enrichment. Crowley's complaint is somewhat disingenuous, because the same was true for the TRR deal offered by the Obama Administration last October; indeed, it was that deal's silence on the question of continued enrichment that prompted President Mahmoud Ahmadinejad to initially hail it as a great victory before domestic opposition forced him to back out of the deal. This time, a similar deal appears to have the backing of a broad spectrum of Iranian politicians, from Supreme Leader Ayatullah Ali Khamenei to a majority of parliamentarians and some key figures in the reformist movement.”
Pois é.
O Brasil tem milhões de brasileiros que
gastam sua energia distribuindo
ressentimentos passivos.
Olham o escândalo na televisão e
exclamam 'que horror'.
Sabem do roubo do político
e falam 'que vergonha'.
Vêem a fila de aposentados
ao sol e comentam 'que absurdo'.
Assistem a uma quase pornografia
no programa dominical de televisão
e dizem 'que baixaria'.
Assustam-se com os ataques dos criminosos e choram 'que medo'. E pronto!
Pois acho que precisamos de uma transição 'neste país'.
Do ressentimento passivo à participação ativa'.
Pois recentemente estive em Porto Alegre ,
onde pude apreciar atitudes com as quais
não estou acostumado, paulista/paulistano que sou.
Um regionalismo que simplesmente não
existe na São Paulo que, sendo de
todos, não é de ninguém. No Rio Grande do Sul,
palestrando num evento do Sindirádio, uma surpresa.
Abriram com o Hino Nacional..
Todos em pé, cantando.
Em seguida, o apresentador
anunciou o Hino do Estado do Rio Grande do Sul.
Fiquei curioso. Como seria o hino?
Começa a tocar e, para minha surpresa,
todo mundo cantando a letra!
'Como a aurora precursora /
do farol da divindade, /
foi o vinte de setembro /
o precursor da liberdade '
.
Em seguida um casal, sentado do meu lado,
prepara um chimarrão.
Com garrafa de água quente e tudo.
E oferece aos que estão em volta.
Durante o evento, a cuia passa de
mão em mão, até para mim eles oferecem.
E eu fico pasmo. Todos colocando a boca
na bomba, mesmo pessoas que não se
conhecem. Aquilo cria um espírito de
comunidade ao qual eu, paulista,
não estou acostumado.
Desde que saí de Bauru,
nos anos setenta, não sei mais o que é 'comunidade'.
Fiquei imaginando quem é que sabe cantar
o hino de São Paulo.
Aliás, você sabia que
São Paulo tem hino? Pois é...
Foi então que me deu um estalo.
Sabe como é que os 'ressentimentos passivos'
se transformarão em participação ativa?
De onde virá o grito de 'basta' contra
os escândalos, a corrupção e o deboche
que tomaram conta do Brasil?
De São Paulo é que não será.
Esse grito exige consciência coletiva,
algo que há muito não existe em São Paulo.
Os paulistas perderam a capacidade
de mobilização. Não têm mais interesse
por sair às ruas contra a corrupção.
São Paulo é um grande campo de refugiados,
sem personalidade, sem cultura própria, sem 'liga'.
Cada um por si e o todo que se dane.
E isso é até compreensível numa
cidade com 12 milhões de habitantes.
Penso que o grito - se vier - só poderá
partir das comunidades que ainda têm
essa 'liga'.. A mesma que eu vi em Porto Alegre.
Algo me diz que mais uma vez o povo do Sul
é que levantá a bandeira. Que buscarão
em suas raízes a indignação que não se
encontra mais em São Paulo..
Que venham, pois. Com orgulho
me juntarei a eles.
De minha parte, eu
acrescentaria, ainda:
'...Sirvam nossas façanhas, de modelo a toda terra...'
Arnaldo Jabor.
O mundo visto pelo Jabor,é um mundo competitivo ,onde a necessidade de estabelecer territórios vem das disputas entre amigos e inimigos,um prevalecer sobre o outro é quase que inevitável!Qualquer acontecimento em todas as épocas se repetem de uma maneira ou de outra,só com roupagens diferentes (com tecnologias diferentes)!Veja o caso na Antiguidade da dominação do Império Romano do Império Grego ou Turcos Otomanos ñ é tão diferente do Neocolonialismo atual do grupo dos G8!No filme Avatar,mostra que num futuro bem remoto em Planetas muito distantes do nosso mostra essa disputa de poder e recursos econômicos,é a eterna disputa entre amigos e inimigos,onde o inimigo é visto como demônio e o amigo um Deus ou vice versa!Uma coisa é a mais absoluta certeza a lei da sobrevivência e da ganância vai existir em todas as épocas!Será isso sempre necessário?O homem está caminhando para involução da humanidade ou para ética pessoal e coletiva?Onde iremos parar?Para destruição ou para encontrar um caminho viável onde todos se entendam e vivam numa sociedade mais justa?São perguntas difíceis de se responder!Respondam quem puder!
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